sexta-feira, 23 de setembro de 2016

REFLEXÕES INCÔMODAS


Fedra Renisar
Lembranças podem ser ocultadas – só evite o “não lembro”, que pode remeter ao alemãozinho. Se olharem para você, mude de assunto – é bom ter um elenco de coisas bem atuais sempre à mão, melhor, na cabeça. A internet é uma aliada inestimável. Busque as músicas, nomes de bandas que estão bombando, shows – principalmente no Brasil –filmes e coisas afins.  Levar um papo com parentes jovens ajuda muito.  Nos fins de semana, dê uma dormidinha à tarde e enturme num programinha jovem, só para se atualizar. Dica: pague a despesa, o que vai garantir próximos convites.

Catarata, colonoscopia, exame de próstata, hemorróidas, dores “nas juntas”, meno e andro pausa, gordurinhas teimosas e plissado démodé no corpinho que TE parece ainda sarado. ELES, OS ÓCULOS!! Ih..., cuidado com as piadas muito engraçadas, elas vão direto para a bexiga.

Ah, não são coisas da vida? Sim, de velho!

Mas, nem tudo está perdido. Soluções: para cirurgias embaraçosas, pequenas viagens. Tratamento dentário, embora encareça um tanto, bons dentistas fazem lentamente, com provisórios que não deixam falhas. Quando só o colesterol começa a subir, o comprimido azul faz milagres, embora rapidinho – sem stress, elas não vão reclamar. Roupas transparentes com furos para ventilação – para o verão de mais de 40. Um care free na bolsa. Lentes de contato, só para a noite, enquanto não lançar mão da troca de cristalino, que promete e faz maravilhas pela sua visão. Dieta, nem pensar! Passe uma semana espartana e tenha reserva para encarar o OutBack e outros do gênero, que oferecem NADA ao pagante.

Coincidência atroz: jovens dormem e maduros acordam, na mesma hora.

Mas, se você odeia gente de a sua idade e tem jovem sobrando, vai fundo! Antes dividir um prato de morangos do que comer um de merda sozinho – experiência se compartilha.

E, se o assunto interessa a tantos, lá vai o balde de água fria:
Dormir com alguém que deseje que seu sono seja eterno, para chorar um dia e rir o resto da vida...


Como diz o filósofo Karnal, na maturidade, escolha alguém que possa ir com você até o fim. 

Ou caia na real, o que menos se vê nos asilos é parente próximo dos internos.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

CURA DA DEPRESSÃO COM DERRUBADA DAS LEIS DA FÍSICA E DA MATEMÁTICA
Fedra Renisar
No metrô, entre o Centro e Botafogo, pensei em ir ao supermercado Mundial – achando ser a única, numa quarta-feira, às 14h.

Quando tentei adentrar o recinto, me deparei com um mar de gente. Carrinhos de diversos tamanhos, cestas com pontas assassinas e objetos pontiagudos fazendo vítimas pelos quatro lados, além de carrinhos de feira (?!) conduzidos por ambidestros ágeis – uma das mãos puxando o carrinho atrás de si e a outra, lançando objetos dentro do mesmo. Entre a mão e o carrinho, vários pés se desviavam, num verdadeiro balé no inferno.
Num show, são nove pessoas por metro quadrado. Aí vai a primeira derrubada. Lá, são 100!! A segunda, que confirma a primeira, no Mundial, dezenas de corpos ocupam o mesmo lugar no espaço. Duvida? Vai lá!

Chegar ao corredor desejado pode ser uma aventura. Se, a matemática afirma que a menor distância entre dois pontos é uma reta lá, são infinitas elipses. Quando se pensa estar prestes a entrar no mesmo, vê-se que dúzias de carrinhos e cestinhas, disputam heroicamente um espaço com aquela jangada de reposição que promete ceifar tornozelos, caso os mesmos não cedam o posto rapidamente.

Tendo finalmente conseguido alcançar três litros de leite e uma promoção de duas latas de leite em pó + Nesfit (grátis) e um pacote de café, fui me colocar num lugar na fila de um caixa rápido – outra derrubada. No salão, com trocentas caixas dispostas em L, era impossível saber qual era a fila certa. Era um tal de com licença, sem licença, empurrões e “estou aqui” e “ali”, que foi melhor relaxar e ir sendo levada pelo fluxo, para saber onde iria chegar. Finalmente, avistei um caixa rápido, para 15 volumes, com cinco pessoas à minha frente. Nessa hora, a sensação era de puro júbilo.

Como felicidade nunca é completa, a moçoila à minha frente, esqueceu de pesar o frango. Detalhe, com essa facilidade de circulação, as balanças são posicionadas no extremo oposto aos caixas, no fundo do mercado.

Enfim, tudo somado, cerca de uma hora nesse ambiente e uma economia de R$10,00.

Não valeu? Claro que sim! A depressão? Ih,esqueci!!

domingo, 20 de março de 2016

PARQUINHO DE DIVERSÕES


"Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você."                                                                             Sartre

Fedra Renisar
As redes sociais são um divertimento. Tudo é divertido, até as pessoas.  Tentamos trazê-las para a realidade e as tratamos como se fossem um aparelho eletrônico novo. Examinamos o design, pesquisamos o que ele tem a mais e – se não for tão interessante -, desistimos.  Ninguém se mostra realmente. Perfis são construídos com todos os elementos da fantasia, surgem e somem. Fotos raramente correspondem à realidade.

As redes sociais – parquinho de diversões virtual–-, onde pessoas são brinquedos a serem usados e sentimentos são manipulados através de um teclado, devem satisfazer a um grupo niilista, protegido pelo estereótipo comum à classe. São interessantes, descontraídos, divertidos e vivem sós – dizem. O meio virtual faz aflorar todo tipo de desejos, desde os mais simples – seduzir e sumir – como os mais complexos. Há de se observar certo cuidado.

O que mais seduz nesse ambiente é a possibilidade de ocultação dos participantes. O ser incógnito pode tudo, pois tem a sensação de poder ilimitado.

Vem o encontro. Somos seres visuais. O que primeiro nos atrai é a aparência. Desejamos o belo em toda a sua exuberância. O presente sonhado tem de vir numa linda embalagem que, se aberta sem o devido cuidado, pode fazer falta para complementar o conteúdo. Passado o prazer da remoção do que oculta objeto tão esperado, nos defrontamos com tudo que sonhamos ter. Ou não!

Fica a experiência. E, toda experiência que não causa grandes danos, é válida. Algo como uma bolsa nova, que apesar de não valer o que custou, pode ser usada em várias ocasiões sem fazer feio. De fato, não se deve nivelar tudo “por baixo”, mas tentar seduzir se realmente houver interesse, pode ser sinal de bom caratismo. Coração aberto, correção e honestidade devem ser reservados para quando surgir uma imagem que os reflita.

A identificação de profissionais internautas é fácil. Todo ser que alcança algum sucesso com encenações tipo filme B, tende a pensar que é espertíssimo. Usa frases feitas, se desfaz em gentilezas, age como se fossem já conhecidos, mesmeriza - pensa! Em geral, fala com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, tipo metralhadora giratória. A preservação de sentimentos cabe aos interessados, jamais aos profissionais.

Para aqueles que não desejam fazer parte desse roteiro de quinta, a identificação precoce de esse ser histriônico, pode economizar tempo e evitar desgaste. Ainda há muito a ser descoberto, mesmo na Rede. Se nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que é opaco tem pouco valor. Perfis não tão brilhantes podem ocultar bons princípios, um excelente caráter e respeito pelos demais.

Assim como nas lojas, também nas redes sociais, objetos e pessoas estão expostos para serem escolhidos e comparados através de belas fotos, que podem ocultar um interior nem sempre apreciável.


Está aberto o jogo, entra quem quer. São aulas reais sobre o mundo virtual.  

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PARA REFLETIR

Fedra Renisar
Muito aprender é muito sofrer. Deixe que o rio siga seu curso, ele segue para o mar, assim como todos os seres vivos para a morte. O caminho passa por algumas paisagens lindas e outras feias. Preserve a natureza, não leve consigo o que mais gostar. Não prive os demais de o prazer da contemplação. Grave apenas o que valer a pena ser lembrado.

Não tente deter o curso de a vida. Apesar dos seus esforços, ela vai prosseguir, levando absolutamente tudo de até há um segundo. Dispa a fantasia de outros tempos – você só se engana quando pensa enganar os demais. Todos sabem o que são e como estão. Não faça disso um pesadelo, apenas conviva. Não entrar em batalha perdida poupa pelo menos uma vida, a sua.

Cuide-se o melhor que puder, se alguém se interessar por você, vai merecer ver um resquício de o que o artista criou, não o que o tempo desbotou. Só não tente inserir-se na exposição errada, cada era teve seu estilo.

Estamos vivendo um tempo de carências múltiplas. Vivemos correndo atrás de o que passou, enquanto o presente está passando. Nessa busca, perdemos os dois. Não se policie o tempo todo. Soltar as amarras e deixar-se levar pelo vento é privilégio de os que não temem viver um novo roteiro, repleto de surpresas.

Saia do palco, tire a máscara, respire e se permita o conforto de a roupa brega em casa; de a liberdade de os pés descalços nos fins de semana, de a xícara de café que segue o jornal a ser lido, de a música ou de o silêncio que lhe apraz. Sobretudo, não evite os adjetivos que fazem parte da sua vida atual. Existem, são seus. Já imaginou perdê-los?

Saia do jogo e entre na sua história. Curta, muito, o que o tempo levou, mas sua memória não apagou. Permita-se refletir sem ter de explicar sua quietude- esse é um direito que poucos respeitam. Para estar só não é necessário ser só. Relembrar é um ato solitário.

Deseje tudo que ainda quiser ter. O desejo impulsiona a vida. E, para que ela não pare, deseje o impossível, só para continuar desejando.

 Como disse Gabriel Garcia Marques “Se me fosse dado uma nova chance, dormiria menos e sonharia mais”.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

UM GRANDE AMOR


 “(...) Ainda te quero como sempre quis/Estarei mentindo dizendo que/Não te amo mais.”
  “Não te amo mais/Estarei mentindo dizendo que/Ainda te quero como sempre quis (...)”
                                                                               Clarice Lispector
Fedra Renisar
_ Transei com uma mulher em São Paulo. Prometemos que diríamos se acontecesse.

Ela olhou para ele sem dizer nada. Uma corrente gelada percorreu seu corpo. Sentiu uma tontura parecida com quase desmaio. Não emitiu um único som. Foi até a cozinha, tirou os aperitivos do forno e colocou-os no aparador já enfeitado com flores. Entregou a garrafa de champagne para que ele a abrisse. Ligou o som preparado com a música dos dois. Brindaram, se abraçaram e dançaram.

De segunda à sexta, cinco dias separados, muita saudade. Habitualmente iam juntos a todos os eventos dos quais participavam. Naquela semana, ela estava fazendo um curso no Rio. Era muito importante para o seu trabalho. Havia feito a inscrição com meses de antecedência. O mestre, pra lá de concorrido, podia acrescentar muito à sua intelectualidade.

Muito elegante e discreta, procurou posicionar-se no meio da sala para não chamar a atenção. Mantinha os olhos baixos e ouvidos atentos. O celular, sem som, em cima da carteira. Seu amor podia chamar. Ela não atenderia, mas veria.

No segundo dia o professor, sempre falando, aproximou-se e sorrateiramente pegou seu celular e enfiou no bolso. Pensou em protestar, mas manteve-se calada. Ao final da aula, discretamente, pediu seu telefone de volta.  Aquele homem alto, sério, que encantava mais pela imagem do que pelo saber devolveu o aparelho com um olhar penetrante.

No terceiro dia, deixou o celular na bolsa aberta no colo. Como sempre, olhos baixos, atenta. No meio da aula, uma digressão. Quantos haviam casado mais de uma vez? Uma bolinha de papel a atingiu em plena testa. Era sua vez de falar. Quatro, respondeu. Venceu, disse o mestre. Seu depoimento, por favor.

Sempre fora direta. Jamais fugia de uma resposta. Enfrentava a vida de frente. Não tinha porque esquivar-se.

_ Casei-me a primeira vez com um militar, 26 anos mais velho. Dois anos. Separei-me por causa de um médico 13 anos mais velho. Mais dois anos. A terceira vez, com um engenheiro, quatro anos mais novo. Vinte e nove anos. A quarta vez com um psiquiatra, três anos mais jovem. Finalmente um grande amor. Até aqui, um ano e quatro meses.

Na saída, o mestre a esperava. Passou por ele sem olhar. Pegou um taxi e foi para casa. Seu grande amor já devia ter chegado.

Pensava nisso enquanto dançavam.

Na semana seguinte, a última aula. Quando terminou, o professor lá estava esperando-a.

À uma e meia da manhã, quando chegou a casa, ele estava olhando para a porta.
_ Pensei que o curso terminasse às dez horas.
_ E terminou, disse ela caminhando para o chuveiro.

Um mês depois, comemoraram mais um mensário de feliz união

domingo, 10 de janeiro de 2016

A JACA

  "O prazer do crime passa, o arrependimento vem e o remorso perpetua-se."                                                                                                                                   Marquês de Maricá
                                                                   
Fedra Renisar
Originária da Índia, sua árvore chega a 20 metros de altura e um metro de diâmetro. É cultivada em toda a região amazônica, passando pelo Pará até o Rio de Janeiro. Seu fruto chega a pesar 15 kg. Comer jaca é ingerir vitaminas, minerais, carboidratos, fibra etc. Ela traz uma série de benefícios à saúde, como o aumento da imunidade. Não tem colesterol. Mas, enfiar o pé na jaca, causa um mal irreversível.

A jaca é doce como os relacionamentos no seu início. Ambos fornecem calorias capazes de gerar energia aos envolvidos. Assim como o amor, é rica em antioxidantes, que mantém o brilho nos olhos e o viço da pele.

Apesar de ser cultivada em apenas uma parte do Brasil, que atire a primeira jaca aquele que nunca enfiou o pé numa, seja aonde for, - desafio lançado àqueles que já passaram ou ainda estão na fase da imaturidade, embora esse estágio se perpetue em muitos. Enfiar o pé na jaca é privilégio da imaturidade, grande incentivadora da vaidade.

A Jaca é rica em frutose e sacarose, que fornecem um impulso rápido de energia. O ser passa a objeto de desejo, o que é irresistível – aquele que se acha irresistível, não resiste. Tudo somado, o ego, imenso, compete com o tamanho de uma jaqueira.  

Tentar tirar o pé da jaca é sinal de falta de vivência. Aquele que o faz, só consegue oferecer a outra face. A jaca é macia por dentro. Viscosa, gruda no pé – a cola mais poderosa que se conhece é a prima pobre da jaca. Sua superfície dura e espinhosa engana tanto quanto promessas de amor eterno feitas nas horas de intimidade.

Uma vez enfiado o pé, tente tirá-lo delicadamente, sabendo que aquele sapato estará perdido para sempre. Perca os sapatos, mas tente não perder a dignidade. Aproveite a aprendizagem – dizem que entre as propriedades da jaca, uma é a de aumentar a visão.

A jaca também traz muitos benefícios para o sistema imunológico. Protege contra doenças comuns como a tosse, resfriado e gripe. Pena que sua proteção não atinja a cabeça não pensante dos que costumam enfiar os pés nela.

Apesar de ser indubitavelmente uma fruta com propriedades relevantes no combate ao câncer, doenças degenerativas e envelhecimento, esses benefícios só são alcançados quando de sua ingestão pela boca, não pelo pé.

Antioxidantes, contidos na jaca, combatem os radicais livres que causam danos ao DNA das células. Tão poderosa fruta, se absorvida pelo cérebro, poderia ajudar bastante na compreensão dos anseios do próximo – aquele que está muuuuito perto – e evitar os malefícios trazidos pelos radicais livres quando afetam o bom senso.

Para os que pretendem continuar enfiando os pés na jaca, a sugestão é: varie de jaca - jaca-dura, jaca-mole e jaca-manteiga - e de sapatos também.