“(...) Ainda te quero como sempre quis/Estarei
mentindo dizendo que/Não te amo mais.”
“Não te amo mais/Estarei mentindo dizendo que/Ainda te quero como
sempre quis (...)”
Clarice Lispector
Fedra Renisar
_
Transei com uma mulher em São Paulo. Prometemos que diríamos se acontecesse.
Ela olhou para ele sem dizer nada. Uma corrente
gelada percorreu seu corpo. Sentiu uma tontura parecida com quase desmaio. Não
emitiu um único som. Foi até a cozinha, tirou os aperitivos do forno e
colocou-os no aparador já enfeitado com flores. Entregou a garrafa de champagne
para que ele a abrisse. Ligou o som preparado com a música dos dois. Brindaram,
se abraçaram e dançaram.
De segunda à sexta, cinco dias separados, muita
saudade. Habitualmente iam juntos a todos os eventos dos quais participavam.
Naquela semana, ela estava fazendo um curso no Rio. Era muito importante para o
seu trabalho. Havia feito a inscrição com meses de antecedência. O mestre, pra
lá de concorrido, podia acrescentar muito à sua intelectualidade.
Muito elegante e discreta, procurou posicionar-se no
meio da sala para não chamar a atenção. Mantinha os olhos baixos e ouvidos
atentos. O celular, sem som, em cima da carteira. Seu amor podia chamar. Ela
não atenderia, mas veria.
No segundo dia o professor, sempre falando,
aproximou-se e sorrateiramente pegou seu celular e enfiou no bolso. Pensou em
protestar, mas manteve-se calada. Ao final da aula, discretamente, pediu seu
telefone de volta. Aquele homem alto,
sério, que encantava mais pela imagem do que pelo saber devolveu o aparelho com
um olhar penetrante.
No terceiro dia, deixou o celular na bolsa aberta no
colo. Como sempre, olhos baixos, atenta. No meio da aula, uma digressão.
Quantos haviam casado mais de uma vez? Uma bolinha de papel a atingiu em plena
testa. Era sua vez de falar. Quatro, respondeu. Venceu, disse o mestre. Seu
depoimento, por favor.
Sempre fora direta. Jamais fugia de uma resposta.
Enfrentava a vida de frente. Não tinha porque esquivar-se.
_ Casei-me a primeira vez com um militar, 26 anos
mais velho. Dois anos. Separei-me por causa de um médico 13 anos mais velho.
Mais dois anos. A terceira vez, com um engenheiro, quatro anos mais novo. Vinte
e nove anos. A quarta vez com um psiquiatra, três anos mais jovem. Finalmente
um grande amor. Até aqui, um ano e quatro meses.
Na saída, o mestre a esperava. Passou por ele sem
olhar. Pegou um taxi e foi para casa. Seu grande amor já devia ter chegado.
Pensava nisso enquanto dançavam.
Na semana seguinte, a última aula. Quando terminou, o
professor lá estava esperando-a.
À uma e meia da manhã, quando chegou a casa, ele
estava olhando para a porta.
_ Pensei que o curso terminasse às dez horas.
_ E terminou, disse ela caminhando para o chuveiro.