quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

UM GRANDE AMOR


 “(...) Ainda te quero como sempre quis/Estarei mentindo dizendo que/Não te amo mais.”
  “Não te amo mais/Estarei mentindo dizendo que/Ainda te quero como sempre quis (...)”
                                                                               Clarice Lispector
Fedra Renisar
_ Transei com uma mulher em São Paulo. Prometemos que diríamos se acontecesse.

Ela olhou para ele sem dizer nada. Uma corrente gelada percorreu seu corpo. Sentiu uma tontura parecida com quase desmaio. Não emitiu um único som. Foi até a cozinha, tirou os aperitivos do forno e colocou-os no aparador já enfeitado com flores. Entregou a garrafa de champagne para que ele a abrisse. Ligou o som preparado com a música dos dois. Brindaram, se abraçaram e dançaram.

De segunda à sexta, cinco dias separados, muita saudade. Habitualmente iam juntos a todos os eventos dos quais participavam. Naquela semana, ela estava fazendo um curso no Rio. Era muito importante para o seu trabalho. Havia feito a inscrição com meses de antecedência. O mestre, pra lá de concorrido, podia acrescentar muito à sua intelectualidade.

Muito elegante e discreta, procurou posicionar-se no meio da sala para não chamar a atenção. Mantinha os olhos baixos e ouvidos atentos. O celular, sem som, em cima da carteira. Seu amor podia chamar. Ela não atenderia, mas veria.

No segundo dia o professor, sempre falando, aproximou-se e sorrateiramente pegou seu celular e enfiou no bolso. Pensou em protestar, mas manteve-se calada. Ao final da aula, discretamente, pediu seu telefone de volta.  Aquele homem alto, sério, que encantava mais pela imagem do que pelo saber devolveu o aparelho com um olhar penetrante.

No terceiro dia, deixou o celular na bolsa aberta no colo. Como sempre, olhos baixos, atenta. No meio da aula, uma digressão. Quantos haviam casado mais de uma vez? Uma bolinha de papel a atingiu em plena testa. Era sua vez de falar. Quatro, respondeu. Venceu, disse o mestre. Seu depoimento, por favor.

Sempre fora direta. Jamais fugia de uma resposta. Enfrentava a vida de frente. Não tinha porque esquivar-se.

_ Casei-me a primeira vez com um militar, 26 anos mais velho. Dois anos. Separei-me por causa de um médico 13 anos mais velho. Mais dois anos. A terceira vez, com um engenheiro, quatro anos mais novo. Vinte e nove anos. A quarta vez com um psiquiatra, três anos mais jovem. Finalmente um grande amor. Até aqui, um ano e quatro meses.

Na saída, o mestre a esperava. Passou por ele sem olhar. Pegou um taxi e foi para casa. Seu grande amor já devia ter chegado.

Pensava nisso enquanto dançavam.

Na semana seguinte, a última aula. Quando terminou, o professor lá estava esperando-a.

À uma e meia da manhã, quando chegou a casa, ele estava olhando para a porta.
_ Pensei que o curso terminasse às dez horas.
_ E terminou, disse ela caminhando para o chuveiro.

Um mês depois, comemoraram mais um mensário de feliz união

domingo, 10 de janeiro de 2016

A JACA

  "O prazer do crime passa, o arrependimento vem e o remorso perpetua-se."                                                                                                                                   Marquês de Maricá
                                                                   
Fedra Renisar
Originária da Índia, sua árvore chega a 20 metros de altura e um metro de diâmetro. É cultivada em toda a região amazônica, passando pelo Pará até o Rio de Janeiro. Seu fruto chega a pesar 15 kg. Comer jaca é ingerir vitaminas, minerais, carboidratos, fibra etc. Ela traz uma série de benefícios à saúde, como o aumento da imunidade. Não tem colesterol. Mas, enfiar o pé na jaca, causa um mal irreversível.

A jaca é doce como os relacionamentos no seu início. Ambos fornecem calorias capazes de gerar energia aos envolvidos. Assim como o amor, é rica em antioxidantes, que mantém o brilho nos olhos e o viço da pele.

Apesar de ser cultivada em apenas uma parte do Brasil, que atire a primeira jaca aquele que nunca enfiou o pé numa, seja aonde for, - desafio lançado àqueles que já passaram ou ainda estão na fase da imaturidade, embora esse estágio se perpetue em muitos. Enfiar o pé na jaca é privilégio da imaturidade, grande incentivadora da vaidade.

A Jaca é rica em frutose e sacarose, que fornecem um impulso rápido de energia. O ser passa a objeto de desejo, o que é irresistível – aquele que se acha irresistível, não resiste. Tudo somado, o ego, imenso, compete com o tamanho de uma jaqueira.  

Tentar tirar o pé da jaca é sinal de falta de vivência. Aquele que o faz, só consegue oferecer a outra face. A jaca é macia por dentro. Viscosa, gruda no pé – a cola mais poderosa que se conhece é a prima pobre da jaca. Sua superfície dura e espinhosa engana tanto quanto promessas de amor eterno feitas nas horas de intimidade.

Uma vez enfiado o pé, tente tirá-lo delicadamente, sabendo que aquele sapato estará perdido para sempre. Perca os sapatos, mas tente não perder a dignidade. Aproveite a aprendizagem – dizem que entre as propriedades da jaca, uma é a de aumentar a visão.

A jaca também traz muitos benefícios para o sistema imunológico. Protege contra doenças comuns como a tosse, resfriado e gripe. Pena que sua proteção não atinja a cabeça não pensante dos que costumam enfiar os pés nela.

Apesar de ser indubitavelmente uma fruta com propriedades relevantes no combate ao câncer, doenças degenerativas e envelhecimento, esses benefícios só são alcançados quando de sua ingestão pela boca, não pelo pé.

Antioxidantes, contidos na jaca, combatem os radicais livres que causam danos ao DNA das células. Tão poderosa fruta, se absorvida pelo cérebro, poderia ajudar bastante na compreensão dos anseios do próximo – aquele que está muuuuito perto – e evitar os malefícios trazidos pelos radicais livres quando afetam o bom senso.

Para os que pretendem continuar enfiando os pés na jaca, a sugestão é: varie de jaca - jaca-dura, jaca-mole e jaca-manteiga - e de sapatos também.